Análises

Por que "cloud-first" não deveria significar "apenas cloud"

Por que "cloud-first" não deveria significar "apenas cloud"

Há dez anos que o Larry Ellison da Oracle teve o seu momento Thomas Watson, descartando o cloud computing como uma moda, um absurdo e uma insensatez. Claramente, da mesma forma que o número de computadores em uso em todo o mundo não ficou limitado a cinco unidades, como o Watson da IBM previu em 1943, o cloud computing tem crescido de forma consistente, com as despesas mundiais em infraestrutura cloud em 2018 estimadas em mais de 80 mil milhões de dólares e ainda a crescer.

Avance uma curta década, e é quase como se o cloud computing mal merecesse ser mencionado. É um pouco como dizer que um eletrodoméstico funciona a eletricidade. Bem, obviamente… Consideramos agora o modelo económico da cloud como algo dado por garantido: permitindo que empresas de todas as dimensões acedam aos melhores serviços disponíveis para si, de forma rápida, económica e com suporte mínimo necessário, independentemente de o fornecedor ter ou não estabelecido operações no seu país. Os serviços cloud ajudaram a quebrar a hegemonia dos fornecedores de ERP em caixa negra, dando às empresas flexibilidade, interfaces de fácil utilização e soluções para requisitos de nicho. De forma crucial, melhoraram, no geral, a segurança e permitiram às PME, e mesmo a indivíduos, aceder a serviços de software de nível empresarial.

Mas, em comparação com os mais recentes termos da moda que dominam as manchetes, como a IA e a aprendizagem automática, em alguns meios a cloud é agora bastante comum. Então por que razão ainda se escreve sobre isso hoje?

Bem, ainda não está tudo resolvido. E vale a pena rever algumas das suposições sobre a cloud que poderíamos erroneamente considerar como conclusões definitivas.

Já escrevi sobre um anteriormente: a incompatibilidade entre a mais recente legislação para proteger informações de identificação pessoal, como o GDPR europeu, e as leis que tentam combater o terrorismo, como o CLOUD Act americano (Clarifying Lawful Overseas Use of Data Act), que permite às autoridades americanas solicitar dados a fornecedores de serviços americanos, onde quer que esses dados estejam armazenados no mundo, e sem informar as pessoas cujos dados pessoais estão envolvidos. Dado que quatro dos cinco principais fornecedores de serviços cloud por quota de mercado são empresas americanas – isso representa muita informação pessoal sobre muitas pessoas, incluindo cidadãos americanos e não americanos. O CLOUD Act e o GDPR estão claramente em oposição direta um ao outro, e complicam ainda mais os serviços cloud onde o fornecedor de serviços, o centro de dados, a empresa que recolhe os dados de identificação pessoal e o cliente podem estar cada um situado em países distintos. Por enquanto, o impasse entre o GDPR e o CLOUD Act continua.

Outra suposição de que nos devemos precaver é que toda a gente no mundo tem o mesmo acesso à largura de banda de internet e dados que as regiões altamente urbanizadas do mundo desenvolvido – onde, tipicamente, os serviços cloud são concebidos e construídos. Apesar dos enormes avanços na conectividade à internet em todo o mundo, ainda é o caso que alguns países, e também regiões mais remotas em nações bem conectadas, não têm o nível de acesso à conectividade à internet permanente exigida pelos serviços cloud.

Tome como exemplo Tuvalu, a nação insular do Pacífico Sul, e um dos nossos clientes. Ironicamente, para um país cuja segunda maior exportação é o nome de domínio de internet de topo .tv, é um dos países menos conectados do mundo. Embora a conectividade via cabo de fibra ótica submarino esteja em fase de planeamento, está atualmente ligado ao resto do mundo através de comunicações por satélite limitadas e dispendiosas. Os serviços de cloud computing são simplesmente inviáveis aqui.

Da mesma forma, essa sucursal numa pequena cidade que ainda só tem conectividade DSL básica ou dial-up, ou uma operação mineira numa província distante, não beneficiará das mesmas vantagens do serviço baseado na cloud que a sede na cidade, e, no pior dos cenários, pode acabar em completa desconexão da sede.

E, mesmo quando a conectividade à internet é amplamente universal, um problema secundário como cortes de energia regulares pode afetar a capacidade de uma empresa ou indivíduo de aceder a serviços cloud. Uma PME numa grande cidade como Joanesburgo ou Lagos que não pode pagar um gerador pode ficar desconectada de serviços básicos como o e-mail durante um corte de energia.

Num mundo cloud-first, estas sucursais e escritórios de campo, e as PME, não terão as mesmas opções de serviços entre os quais escolher e os consequentes ganhos de produtividade graças a uma oferta mais adequada. Em vez de poderem ser autossuficientes, ficarão presas no ciclo de consultoria em caixa negra, com longos ciclos de instalação e personalização, e uma fatura correspondente. A sua capacidade de colaborar será limitada, os seus dados estarão ligeiramente desatualizados e desalinhados, e perderão as economias de escala da cloud. E a nave-mãe perderá contributos críticos da linha da frente da sua organização.

Por isso, claro, pense cloud-first, mas não pense apenas cloud. Considere formas de capacitar praticamente os seus colaboradores que não têm o mesmo acesso à cloud que você tem, sem regredir para os dias das mega-instalações de equipamento local.

Publicado no AccountingWeb – maio de 2019

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