Análises

Por que a tecnologia já não é uma opção

Por que a tecnologia já não é uma opção

Se parece que o ritmo das mudanças tecnológicas está a acelerar, é porque está mesmo. Cada avanço tecnológico importante impulsiona novos progressos de forma exponencial: pense em como a combinação da computação em nuvem e a adoção de smartphones impulsionou a multiplicidade de aplicações e outros serviços de que dependemos no trabalho e na vida.

Eis outra observação para se sentir menos sobrecarregado (ou, pelo menos, para sentir que o seu estado de sobrecarga é justificado). Nenhuma das seguintes ferramentas que usamos diariamente existia há 10 anos: Office365 online, Zoom, Slack, MS Teams, e a iteração atual do Google Chat. O WhatsApp quase que entra na lista da década — foi lançado em 2009. E 2007, há apenas 13 anos, foi um ano espetacular para a tecnologia, com o lançamento do iPhone, do Android e do Kindle.

Por isso, não é surpreendente que a ansiedade em torno da tecnologia seja algo muito real. Mas enquanto antes era possível safar-se dizendo ser tecnófobo e adotando novas tecnologias lentamente, ou dependendo sempre de um colega ou familiar para fazer o equivalente moderno de programar o videogravador, num mundo pós-COVID já não tem essa escolha. Precisa de aprender a resolver os problemas básicos e o que precisa para fazer o seu trabalho, ou irá perder informação essencial e colaboração no trabalho, bem como interações humanas essenciais e vantagens para a saúde mental em casa. Antes, os seus colegas poderiam com relutância enviar-lhe uma mensagem pelo WhatsApp ou por e-mail porque nunca dominou o Slack (onde toda a gente estava), mas hoje essa é uma concessão que estão menos dispostos a fazer.

Isto pode parecer assustador, e um pouco severo. Mas o lado positivo tem potencial para ser profundo. Considere um octogenário num lar de idosos isolado devido à pandemia. Graças à tecnologia, pode agora manter contacto audiovisual diário com familiares e amigos, e continuar as suas atividades do dia a dia de uma forma extraordinariamente ampliada: desde desfrutar de espetáculos de artistas de renome em qualquer parte do mundo, a webinares sobre qualquer tema, a participar em passatempos e atividades manuais com uma comunidade global, até noites de quiz com familiares espalhados pelo globo. Os nossos mundos físicos podem ter encolhido, mas temos a capacidade de expandir os nossos mundos virtuais de uma forma sem precedentes.

O mesmo se aplica ao local de trabalho, onde a colaboração online é mais importante do que nunca e o tempo presencial vai ser inexistente ou, na melhor das hipóteses, muito reduzido. Mas o requisito de entrada para participar nestas conversas, reuniões, apresentações e sessões de brainstorming é pelo menos um conhecimento básico das principais plataformas tecnológicas que os seus colegas, fornecedores e clientes utilizam. É também aconselhável uma mudança de mentalidade e uma forma de trabalhar atualizada: problemas como a sobrecarga de informação e o inferno das revisões de documentos podem ser evitados se se concentrar em alguns canais, e não insistir em que os documentos lhe sejam também enviados por e-mail e depois armazenados localmente. Ou, pior ainda, impressos. Após a curva de aprendizagem inicial, as eficiências e a simplificação que alcançará ao ajustar a sua forma de trabalhar reduzirão significativamente a sensação de sobrecarga.

Por onde começar?

1. Não cinco minutos antes da sua primeira chamada Zoom. Descarregue e instale novo software com antecedência e familiarize-se com ele antes de uma apresentação ou reunião crucial.

2. Espere uma curva de aprendizagem: toda a gente passa por ela em certa medida, e a curva começa a aplanar-se quanto mais aprende.

3. Espere que a tecnologia seja por vezes estranha: mesmo as empresas de tecnologia que dedicam muito tempo e atenção à experiência do utilizador estão tipicamente a iterar tão depressa que de vez em quando surgem bugs (e esperemos que sejam rapidamente removidos). Saiba que às vezes é a tecnologia, e não você.

4. Peça ajuda: os primeiros utilizadores adoram tipicamente mostrar aos colegas a melhor forma de fazer as coisas, e também lhe transmitirão dicas de etiqueta, como silenciar sempre o microfone numa chamada de videoconferência a menos que esteja a falar.

5. Aprenda a pesquisar no Google quaisquer problemas que esteja a ter. É provável que alguém já tenha tido o mesmo problema e tenha criado um vídeo explicativo ou um artigo respondendo exatamente à sua questão.

A boa notícia é que a adoção da tecnologia torna-se uma profecia auto-realizável. Quanto mais confortável se sentir, menos ansiedade tecnológica vai experienciar, e vai aprender mais e começar a personalizar as suas ferramentas para trabalhar a seu favor, reduzindo ainda mais a sua ansiedade.

Porque uma coisa que sabemos com certeza é que a única constante é a mudança. E para parafrasear Nick Davis, presidente da faculdade de inovação empresarial da Universidade da Singularidade: 2020 pode ter sido o ritmo de mudança mais rápido que já experienciámos até à data, mas, graças ao efeito multiplicador da tecnologia, vai ser o ano mais lento daqui para a frente. E o que está em jogo não é se vai ou não perder o último episódio da sua série favorita porque não sabe programar o videogravador (sem mencionar que hoje em dia está a fazer streaming a pedido de qualquer forma), mas se vai ou não perder uma parte significativa da sua experiência de vida no trabalho e em casa.

Publicado no AccountancyWeb - julho de 2020