Análises

Quando a mudança é a sua normalidade, a mudança é oportunidade

Quando a mudança é a sua normalidade, a mudança é oportunidade

É fácil sofrer de fadiga da perturbação quando literalmente todos os artigos que lê lhe recordam que a disrupção digital está aqui, e que se não está a fazer nada quanto a isso, já perdeu o autocarro.

Bem, lamento dizer, mas não só perdeu o autocarro, como também está a perder o serviço de táxi a pedido e está prestes a perder o veículo autónomo. Tomemos o Uber — o símbolo da disrupção dos negócios tradicionais, que abalou o setor centenário dos táxis. Mas, enquanto o Uber resolve os seus problemas de cultura interna e clarifica a sua relação com os condutores, já está a provar a sua própria medicina. Dubai está prestes a perturbar o perturbador com o anúncio do lançamento de táxis-drone sem piloto este ano.

Penso, portanto, que todos podemos concordar que a mudança está a chegar, está a chegar rapidamente e é exponencial. Poderia dizer: «como nunca vimos antes», mas já vimos, consistentemente, ao longo da última geração. Está simplesmente a ficar mais rápido!

No entanto, operar com esta quantidade de mudanças e incertezas é corriqueiro em África. E a consequência da nossa exposição a mudanças incessantes e erráticas é um otimismo empreendedor profundamente enraizado, que penso que nos será muito útil. Escrevo isto na semana em que o meu país, a África do Sul, viu o seu presidente sobreviver a um oitavo voto de desconfiança no parlamento. Este é um reflexo razoável da falta de confiança de que o país em geral padece, agravada pelas cadeiras musicais no gabinete do nosso ministro das Finanças; um preço do combustível em montanha-russa; uma taxa de inflação oficial de 6,6% (que muitos diriam estar longe de ser realista) e revelações constantes de má gestão, corrupção e suborno. A mudança é literalmente a nossa constante.

Tornámo-nos extraordinariamente resilientes e adaptáveis. Confortáveis não só em atravessar mudanças tectónicas, mas também em transformá-las em oportunidades. Com a incerteza criada pelo Brexit e Trump, o mundo ocidental está a aprender da forma mais difícil como desafiar os processos de pensamento existentes e adaptar-se a um ambiente de mudança e incerteza contínuas. Não é tudo mau e o tesouro no fim do arco-íris é uma equipa de gestão mais versátil e adaptável, com uma boa dose de espírito empreendedor.

Se a mudança é a sua normalidade, deverá estar bem preparado para tirar o máximo partido da disrupção digital, procurando as lacunas e as oportunidades que ela apresenta. Porque haverá oportunidades. Tomemos a chegada do automóvel no início do século passado. Com certeza, negócios morreram à medida que menos cavalos eram utilizados: a indústria de cereais enfrentou a ruína; e as cavalariças, ferreiros, treinadores e outros serviços de apoio que se tinham desenvolvido em torno dos veículos de tração animal sofreram um declínio massivo.

Mas outros negócios emergiram. Os automóveis precisavam de ser construídos e estes automóveis precisavam de pneus, postos de combustível, etc. Estradas adequadas tinham de ser projetadas e construídas, assim como sinais de trânsito, passadeiras e outras infraestruturas que tomamos por garantidas.

Como se traduz isto no nosso mundo financeiro? Consideremos a automatização das funções contabilísticas. Os robôs são simplesmente melhores a realizar tarefas repetitivas e baseadas em regras. São mais rápidos e mais precisos do que nós, e não se entediam nem se distraem. Estão a assumir algumas das funções mais repetitivas nas nossas empresas e nos nossos clientes, à medida que o software de contabilidade se torna mais acessível.

Então, enquanto contabilistas, vamos pelo mesmo caminho que os ferreiros e os fornecedores de cereais? Ou somos suficientemente ágeis para nos adaptarmos a esta nova normalidade e procurar oportunidades? Por exemplo, com o fluxo de trabalho repetitivo tratado, podemos apurar o nosso pensamento crítico e as nossas competências de resolução de problemas em benefício dos nossos clientes? Podemos usar o nosso tempo a analisar e avaliar os dados em tempo real que temos agora ao nosso alcance para dar contributos estratégicos aos nossos clientes e apoiar o seu processo de planeamento e tomada de decisão? Podemos desenvolver as nossas competências interpessoais agora que podemos deixar o back-office e interagir com o resto da empresa, bem como com os nossos clientes? E podemos rever algumas ideias estabelecidas, por exemplo, que impacto terá a tecnologia blockchain para nós e para os nossos clientes?

Temos a oportunidade de liderar, não de seguir, a disrupção digital. Mas precisamos de aprender a ser adaptativos e a apurar as competências que talvez não estivessem no topo da lista: competências interpessoais, análise e uma visão saudável e aberta sobre o que o futuro reserva para nós e para os nossos clientes. Podemos liderar ou podemos seguir, mas no mundo de amanhã há pouco valor acrescentado em ser seguidor.

Publicado na Economia a 17 de agosto de 2017 http://economia.icaew.com/en/tech-hub/when-your-normal-is-change-then-change-is-opportunity

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