O governo dos EUA tem vindo progressivamente a intensificar a sua campanha contra o gigante tecnológico chinês Huawei nos últimos anos – e o seu mais recente movimento já está a ter sérias consequências globais.
Em maio, o Departamento de Comércio dos EUA colocou a Huawei numa «lista de entidades» de organizações essencialmente proibidas de fazer negócios nos EUA ou com empresas americanas. Os efeitos propagaram-se rápida e amplamente: em poucos dias, a Google suspendeu as vendas do seu sistema operativo móvel Android à Huawei, o que significa que um dos fabricantes de telemóveis mais populares do mundo já não pode comercializar telemóveis com o sistema operativo mais popular do mundo. A Huawei terá de «fazer um fork» do Android, continuando a desenvolver o seu núcleo open-source numa nova direção divergente, ou desenvolver o seu próprio sistema operativo. Qualquer das escolhas terá consequências significativas para milhares de milhões de utilizadores comuns de telemóveis em todo o mundo.
Não são apenas as empresas americanas a ser afetadas. O designer britânico de microchips ARM comunicou aos seus funcionários que devem suspender todos os negócios com a empresa chinesa, uma vez que os seus designs contêm tecnologia desenvolvida nos EUA, e a japonesa Panasonic também deixou de enviar alguns componentes. Isto é apenas o começo. As empresas tecnológicas de todo o mundo estão profundamente interligadas: a investigação é conduzida e as normas são desenvolvidas por equipas globais; designs desenvolvidos num país são fabricados noutro, usando componentes provenientes de outros países; e esses componentes têm eles próprios componentes produzidos em colaborações globais. As ligações descem até ao nível mais fundamental.
Uma das consequências mais facilmente previsíveis de uma intervenção tão brusca neste conjunto de redes globais é que a Huawei e outras empresas chinesas, com o apoio do governo chinês, vão acelerar os seus já consideráveis esforços para desenvolver as suas próprias tecnologias para substituir tudo, desde chipsets a software. A maioria dos analistas sugere que será difícil e demorará tempo — mas acontecerá.
Por outras palavras, os EUA estão a incentivar a China a tornar-se muito menos dependente deles (e no processo podem estar a levar muitas outras nações a pensar também duas vezes). Esta não é uma boa notícia para as empresas tecnológicas americanas, para as quais a China é um importante mercado de exportação; muitas sofrerão a curto prazo, e a longo prazo enfrentam o risco de serem cortadas do maior mercado do mundo.
Em pelo menos uma área, a China e a Huawei já estão muito à frente. A Huawei é o maior fabricante mundial de equipamentos de rede. Detém também patentes essenciais sobre a tecnologia móvel de quinta geração (5G), que está a começar a ser implementada em todo o mundo e deverá entrar em adoção massiva até 2025. A 5G, que promete uma conectividade móvel tão rápida e fiável quanto as ligações com fio mais rápidas atualmente disponíveis, é um potencial fator de mudança, possibilitando tudo, desde veículos autónomos a cirurgia à distância.
É claro que é a dominância da Huawei nos equipamentos de rede que está na origem da proibição americana logo à partida. A razão aparente é que os laços da Huawei com o governo chinês são demasiado estreitos e que permitir que os seus equipamentos entrem nas infraestruturas de rede críticas constitui um risco para a segurança nacional. Aqueles de nós que estão fora dos EUA talvez sejam justificados em encarar isto com algum ceticismo. O governo americano, o establishment de defesa e a indústria tecnológica têm laços profundos que remontam a muitas décadas; na verdade, a própria Internet tem as suas raízes no DARPAnet, um projeto da Defence Advanced Research Projects Agency. Se a Huawei é uma ameaça devido a ligações governamentais, não deveríamos colocar questões igualmente difíceis sobre a Cisco ou outras empresas sediadas nos EUA cujos equipamentos estão integrados nas redes de telecomunicações americanas e globais?
Os EUA já se arrogam poderes significativos para monitorizar o tráfego de redes globais e apreender dados privados em todo o mundo. A lei Clarifying Lawful Overseas Use of Data (CLOUD Act), aprovada apressadamente pelo Congresso em março de 2018 sem qualquer revisão em comissão ou audição, obriga as empresas americanas — como Google, Amazon, Microsoft, Apple, Dropbox e muitas outras — a disponibilizar às autoridades americanas os dados que detêm, mesmo quando estes dados têm origem e são armazenados no estrangeiro. Isso exigirá naturalmente um mandado legal — mas o mandado será classificado. E com os EUA tendo uma ideia notavelmente elástica do que constitui uma ameaça à segurança nacional, é fácil imaginar que a maioria dos pedidos de mandado será concedida com pouco escrutínio — especialmente se não afetarem cidadãos americanos.
Quer a batalha americana contra a Huawei seja uma questão de segurança nacional, interferência anticoncorrencial para proteger os seus próprios interesses económicos, ou um pouco de ambos, as implicações vão muito além dos EUA e da China. «Quando os elefantes combatem, é a erva que sofre», diz um velho ditado africano; e neste combate, somos nós, o resto do mundo, a erva.
Publicado em AccountingWeb – 1 July 2019
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