Parece que estamos a dar um passo em frente e dois atrás neste momento. Sim, reforçámos a protecção dos dados de identificação pessoal com a lei de Protecção de Informações Pessoais (POPIA) na África do Sul, bem como com o Regulamento Geral sobre a Protecção de Dados (GDPR) da União Europeia.
Mas pergunto-me o que isso significa para a digitalização e inovação em curso, à medida que perturbamos os nossos negócios e mercados para garantir a sobrevivência na quarta era industrial. No centro de grande parte desta inovação encontram-se os dados, e interrogo-me se POPIA e GDPR não estarão a cortar, ou pelo menos a restringir severamente, esta fonte vital.
Uma parte crucial da transformação empresarial consiste em aproveitar a imensa quantidade de dados que dispomos dos clientes, das nossas operações internas e da multiplicidade de dispositivos que se ligam em nosso nome sem sequer pensar nisso. Tome-se o Uber, o exemplo por excelência da disrupção de um modelo de negócio estabelecido. Utiliza dados de localização para ligar condutores a passageiros, e algoritmos de preços e tráfego para definir o valor da corrida. E muitos de nós — especialmente os millennials — estão mais do que dispostos a partilhar os seus dados de identificação pessoal — neste caso, localização e dados do cartão de crédito — com serviços que oferecem valor em troca.
Estas leis parecem aplicar uma marreta ao facto de que «pagamos» serviços como o Facebook com os nossos dados, e de que muitos destes serviços digitais dependem dos nossos dados — e dos de terceiros — para funcionar. As organizações devem absolutamente ser transparentes e éticas na forma como os nossos dados são armazenados e utilizados, e quais os terceiros que têm acesso aos mesmos. Mas receio que tenhamos ido longe demais na direcção contrária.
Certamente, se não gosta da utilização que o Facebook faz dos seus dados, pode eliminar o seu perfil e deixar de usar a plataforma. (A empresa está a estudar a opção de uma subscrição sem anúncios, mas tenho dúvidas quanto à adesão.) Mas tome-se, por exemplo, o meu seguro automóvel, que inclui rastreamento do veículo para monitorizar a minha condução, recompensar-me por bons hábitos de condução segura e enviar serviços de emergência em caso de acidente ou avaria. Se recusasse fornecer os meus dados de geolocalização — como poderia fazer ao abrigo do GDPR — seria impossível oferecer-me este serviço, que é indubitavelmente benéfico para mim.
Outro exemplo. Não há dúvida de que os serviços de informação de tráfego baseados em smartphone, como o Google Maps e o Waze, tornaram a navegação nas cidades nas horas de ponta menos penosa. No entanto, estes serviços dependem de uma comunidade disposta a partilhar os seus dados de localização. Quanto mais dados, melhor o serviço; e, inversamente, quanto mais escassos os dados, menos útil é o serviço — até que, se toda a gente optar por sair, o serviço deixa de funcionar.
Embora o GDPR seja uma legislação da UE, terá reparado na avalanche de actualizações de termos e condições aquando do seu lançamento em Maio deste ano. Isso demonstra como o mundo digital não conhece fronteiras, uma vez que afecta empresas sul-africanas com clientes europeus, subscritores de newsletters ou accionistas, como a Liberty Holdings poderá descobrir após o ataque informático de Junho. E com os EUA, a Austrália e a Índia já a indicar que seguirão o exemplo da União Europeia, não há dúvida de que esta será em breve a norma global.
Existem alguns direitos que o GDPR confere aos indivíduos que me preocupam especificamente em termos do nosso futuro orientado por dados. Nomeadamente o direito a ter todos ou alguns dos seus dados de identificação pessoal apagados; o direito de solicitar que uma empresa deixe de tratar os seus dados; e, por fim, o direito de pedir um tratamento manual e não automático.
Como se isso se concilia com um mundo orientado por dados, onde os insights sobre os nossos dados individuais e colectivos impulsionam o progresso e uma vida melhor? Com saltos quânticos na capacidade de processamento dos computadores à porta, interrogo-me que descobertas melhoradoras de vida serão realizadas por algoritmos de análise de dados que nem sequer conseguimos imaginar hoje. Sim, algumas serão provavelmente melhores formas de nos vender produtos, mas outras poderão ser avanços na medicina, nas alterações climáticas, em cidades mais inteligentes ou em aplicações mais inteligentes que tornem as nossas vidas mais fáceis. Temos de ter cuidado para não manietarmos o nosso futuro digital antes mesmo de lá chegarmos, e infelizmente a legislação actual, se aplicada à letra da lei, poderá estar precisamente a fazer isso!
Publicado em ITWeb – 10 de Julho de 2018
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