Análises

Relato de sustentabilidade e PME – lições da África do Sul

Relato de sustentabilidade e PME – lições da África do Sul

Kevin Phillips, da IDU, explica por que espera que o relato de sustentabilidade venha a aplicar-se às PME, e sobre o que os seus contabilistas deveriam estar a pensar hoje.

O problema de empurrar sempre o assunto com a barriga é que, mais cedo ou mais tarde, ficamos sem saída. E o mesmo acontece com o relato financeiro relacionado com a sustentabilidade. Primeiro adiado pela pandemia, depois pela instabilidade geopolítica e pela escalada dos preços dos combustíveis, o relato de sustentabilidade começa finalmente a ver a luz do dia. (Embora nos EUA as alterações da Securities and Exchange Commission que obrigam as empresas cotadas a reportar informação relacionada com o clima tenham sido recentemente travadas devido a contestações jurídicas, um mês após a sua promulgação.)

A maior parte da atividade de relato envolve obrigações, para empresas cotadas e/ou de grande dimensão, de divulgar e reportar os impactos e ações ambientais, sociais e de governação (ESG). Mas, antes de as pequenas e médias empresas, e os seus contabilistas, suspirarem de alívio, recostarem-se e concentrarem-se noutras questões prementes, pensando que isto não as afeta, talvez queiram reconsiderar.

Obrigações em cascata

Eu diria que os requisitos de relato ESG são suscetíveis de se propagar em cascata até às empresas mais pequenas. Mesmo que a empresa não tenha qualquer intenção de se cotar em bolsa, ou de crescer acima de uma certa dimensão, desde que queira fornecer os seus bens ou serviços a grandes empresas cotadas, poderá ser afetada.

Tiro esta conclusão com base na forma como a legislação de capacitação económica de base ampla dos negros (BB-BEE) foi implementada na África do Sul. As obrigações BB-BEE aplicam-se a empresas do setor privado que fornecem bens e serviços, e que celebram outros acordos comerciais com o governo sul-africano e com empresas estatais. No entanto, dado que uma parte significativa da pontuação global BB-BEE de cada empresa provém da sua seleção de fornecedores, a obrigação de relato começa a propagar-se em cascata por toda a cadeia de fornecimento.

Assim, se o seu cliente for uma grande empresa na África do Sul que precisa de uma boa pontuação BB-BEE para manter os seus clientes governamentais, terá de contribuir para essa pontuação. Isto significa que as empresas de média e pequena dimensão, ao concorrerem a contratos, têm uma carga administrativa e um custo desproporcionados para fornecer a sua pontuação BB-BEE, apenas para serem consideradas para o contrato.

Não há propriamente uma penalização pelo incumprimento. Mas, se quiser manter-se no mercado e fazer crescer a sua receita enquanto PME, precisa de cumprir.

O que significa isto para o relato de sustentabilidade das PME no Reino Unido?

Grande parte da vertente ambiental do relato ESG consiste em reportar as emissões de gases com efeito de estufa (GEE). São estas que importam quando se consideram as metas do Acordo de Paris para a mitigação climática. Globalmente, a meta é reduzir as emissões em 45% até 2030 e atingir a neutralidade carbónica até 2050.

As emissões de GEE agrupam-se em três tipos: os âmbitos 1 e 2 são as emissões provenientes de elementos que a empresa pode controlar: os seus processos de fabrico e a energia que adquire, por exemplo. As emissões de âmbito 3, por outro lado, resultam de atividades que não são propriedade da empresa nem por ela controladas. Estas emissões provêm de montante e de jusante da cadeia de fornecimento e de valor, e incluem atividades como as deslocações casa-trabalho e as viagens dos colaboradores, a eliminação de resíduos e os investimentos. Consoante o setor, as emissões de âmbito 3 podem constituir uma parte significativa das emissões globais, e há pressão para definir metas e reportá-las.

É aqui que encontramos o paralelo com a pontuação BB-BEE na África do Sul. As grandes empresas precisam do contributo da sua cadeia de fornecimento e de valor para reportar adequadamente todas as suas emissões de GEE. Isto significa que as suas obrigações de relato provavelmente se propagarão a montante e a jusante, até aos seus prestadores de serviços. E, se for prestador de serviços de uma grande empresa cotada, herdará estas obrigações de relato como um dos custos de fazer negócio com ela.

E agora?

A primeira coisa é reconhecer que isto está a caminho dos seus clientes PME e começar a educá-los sobre as implicações.

Em seguida, é inviável para a maioria das PME gastar tempo e dinheiro em empresas de consultoria especializadas para reportar com exatidão as suas emissões de GEE. Por isso, será necessária uma forma mais inteligente e rápida de reportar dados de emissões que continue a ser fiável, auditável e exata.

A forma como os seus clientes PME obtêm os dados para introduzir nos seus relatórios é uma questão interessante.

Veremos o surgimento de diretórios online que oferecem dados de referência para emissões – como acontece com o custo das viagens dos comerciais, as tarifas por milha/quilómetro, as ajudas de custo diárias, etc.? Talvez indicadores de pegada de carbono baseados no número de colaboradores, na localização, no setor, no tipo de despesa e por aí adiante sejam uma coisa do futuro.

Ou será este enigma um caso de uso ideal para a inteligência artificial, em que dados que já existem, ou que são fáceis de medir, são usados como variável aproximada para calcular dados de emissões personalizados e exatos para cada PME?

Olhando para o panorama mais amplo, esta informação precisa de existir paralelamente aos dados financeiros tradicionais, ou de ser parte integrante deles, bem como do relato, da orçamentação e da previsão. Se orçamentarmos os números ESG, podemos começar a observar tendências na pontuação relativa, o que é importante tanto para a própria PME como para os seus clientes, que consolidam estas pontuações no seu relato. Imagino um cenário em que os clientes de uma PME começam a formar uma opinião sobre os seus fornecedores no contexto do seu estado ESG atual e previsto.

Por conseguinte, isto não é um exercício pontual, mas precisa de ser integrado nos processos de orçamentação, previsão e relato. Ao fazê-lo, precisamos, tanto quanto possível, de evitar duplicar sistemas e esforços, ou criar silos de dados. Precisamos de garantir que qualquer solução seja rápida, fácil e acessível, para evitar acrescentar tempo a processos de negócio que já estão sob pressão.

O relato de sustentabilidade para as PME é simultaneamente iminente e ainda tem muitos pormenores por resolver – para que seja exequível. Mas o facto de estar a chegar é inevitável e, enquanto contabilistas, devemos preparar-nos para a forma de ajudar os nossos clientes PME com isto.

Conforme publicado na AccountingWeb - maio de 2024