Análises

Empreendedores versus monopolistas

Entrepreneurs vs monopolists

Refrear o instinto empreendedor de dominar um mercado para sempre

Existe uma contradição fascinante no coração do empreendedorismo. Níveis elevados de concorrência encorajam a inovação, criam oportunidades e tornam as economias mais produtivas — pelo que a concorrência é, no geral, benéfica para o empreendedorismo. Para os empreendedores individuais, por outro lado, a concorrência é algo a desincentivar, a antecipar, a suprimir e a eliminar o mais rapidamente possível. A maioria dos empreendedores seria monopolista se pudesse.

Parece uma afirmação arrojada! Mas é, na verdade, uma posição muito natural e razoável. Faz sentido que quem assume riscos queira maximizar as suas recompensas. Colher os benefícios da inovação e proteger os direitos de propriedade intelectual tem sido uma das principais preocupações dos inventores e empreendedores desde, pelo menos, os primórdios da revolução industrial. Personalidades como o inventor da máquina a vapor James Watt dedicaram pelo menos tanto tempo a travar batalhas de patentes como a trabalhar nos seus projetos. O direito da propriedade intelectual reconhece que criar é muito mais difícil do que copiar, e que, se uma sociedade pretende encorajar a inovação, precisa de conceder aos inventores um período limitado de monopólio para que possam ser adequadamente recompensados.

A palavra-chave aqui, contudo, é «limitado». A determinada altura, colher os frutos da sua engenhosidade transforma-se em obstrução à próxima vaga de inovadores, e os concorrentes ágeis de ontem tornam-se os incumbentes pesados e anticoncorrenciais de hoje. Este processo acelerou-se à par de tudo o resto, de tal forma que o ciclo parece ter-se reduzido a alguns anos.

Existem fortes indícios de que a economia dos EUA, motor crítico de inovação para o mundo inteiro, está a começar a sofrer com incumbentes demasiado poderosos. As novas empresas — aquelas responsáveis pelas taxas mais elevadas de inovação e criação de emprego — estão a surgir a um ritmo inferior ao que as antigas estão a encerrar, e a quota dos lucros da indústria que cabe às maiores empresas está a aumentar. Isto tem repercussões muito além das fronteiras dos EUA: empresas como a Amazon, o Facebook e o Google não são responsáveis perante os legisladores ou os eleitores do resto do mundo, e todavia as decisões tomadas em Seattle e no Silicon Valley afetam-nos profundamente a todos.

Existem soluções legislativas para este problema. O processo antimonopólio instaurado contra a Microsoft em 1998 ajudou a desencadear uma nova vaga de inovação que permitiu a ascensão de, sim, a Amazon, o Facebook e o Google. Todos eles estão agora a começar a abusar dos seus poderes de formas diversamente prejudiciais para os consumidores, os trabalhadores e as sociedades, e cresce a pressão para que estes novos incumbentes tenham o seu próprio momento Microsoft.

É uma batalha que vale a pena travar. O caso Microsoft provou, mais uma vez, que quando um monopólio é impedido de criar barreiras desrazoáveis à entrada — por exemplo, através de preços predatórios —, existem sempre novos concorrentes à espera de uma oportunidade justa. À medida que novas empresas entram no mercado, todas estarão sob pressão competitiva para produzir melhores produtos, e um produto melhor ganhará sempre quota de mercado.

O mercado de videoconferências online é um exemplo paradigmático. Impulsionado pela necessidade cada vez maior de comunicar através de fusos horários e países, o seu crescimento exponencial constitui um microcosmo no qual podemos observar estas dinâmicas empreendedoras a desenrolar-se. Há não muito tempo, para realizar uma conferência online era necessário investir num ambiente de hardware muito dispendioso, levando a uma arena largamente dominada pela Cisco e pela Oracle com os seus produtos Webex e GoToMeeting. Elas «possuíam» o mercado. Depois, a Microsoft entrou no mercado ao adquirir o Skype — e, uma vez mais, um novo mercado propício à inovação ficou dominado pelos grandes monólitos. Enquanto dominantes, podiam ditar os preços e estavam sob pouca pressão para inovar.

Mas o ritmo das mudanças tecnológicas torna cada vez mais difícil para qualquer empresa dominar por demasiado tempo. Nos últimos 18 meses, assistimos ao surgimento de uma série de novas ferramentas excelentes que superam os sistemas legados e são disponibilizadas com modelos de preços inovadores, tornando-as irresistíveis. Estas ferramentas surgem rapidamente e, graças ao poder das redes sociais e ao efeito de rede, acumulam milhões de utilizadores quase assim que delas tomamos conhecimento. São os novos desafiantes. Tenho a certeza de que tentarão manter esses utilizadores o mais tempo possível, mas, em última análise, um produto mais recente e mais rápido surgirá e usurpará o seu lugar no mercado: e assim o ciclo continua. Esperemos que a dança intrincada entre inovadores, consumidores, reguladores e outros intervenientes que mantém a saúde dos mercados preserve o seu equilíbrio.

Publicado em AccountingWeb – janeiro de 2020

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