Análises

Tornar-se o contabilista do futuro

Becoming the accountant of the future

Sejamos honestos, somos contabilistas aborrecidos e conservadores, encerrados nos escritórios de apoio, bloqueando despesas e novas ideias. Vamos exercer esta função até à reforma e certamente não somos considerados empreendedores ou pensadores fora da caixa. Todos conhecemos o estereótipo do contabilista, não é assim?

Para piorar a situação, este estereótipo faz com que sejamos frequentemente encarados como um obstáculo no caminho para uma organização preparada para o futuro. Uma organização suficientemente ágil e resiliente para navegar num ambiente empresarial simultaneamente imprevisível, incerto e caótico, mas também repleto de oportunidades e potencial.

Comecemos pelo estereótipo. Sabemos todos que este é profundamente inexacto e que os contabilistas existem nas mais variadas formas, com uma ampla diversidade de especializações, abordagens e características. Além disso, algumas das qualidades objectivas comuns aos contabilistas — fiabilidade, rigor, comportamento ético, seriedade — são essenciais para o sucesso de qualquer empresa.

No entanto, relativamente à segunda afirmação, enquanto profissão, temos potencialmente trabalho a fazer. Mas esse trabalho precisa de assentar nos ingredientes fundamentais que definem intrinsecamente a nossa profissão, para que continuemos relevantes e a acrescentar valor enquanto repensamos e reposicionamos os nossos papéis para pensar de forma inovadora.

Pense desta forma. Sempre foi da responsabilidade do capitão de um navio garantir uma travessia segura, eficiente e pontual até ao destino. Dependendo da rota, durante a maior parte do século XX, os perigos como os icebergs eram conhecidos e esperados, mesmo que a localização exacta do iceberg pudesse ser incerta.

No início do século XX, os capitães dispunham de ferramentas limitadas para detectar icebergs, confiando no rádio de bordo e em avistamentos visuais para navegar em águas perigosas. Catástrofes como o naufrágio do Titanic, aliadas aos avanços tecnológicos, dotaram os capitães de ferramentas mais sofisticadas para melhor identificar estes perigos. Entre elas figuravam a monitorização dedicada, a imagiologia por satélite e o radar. A mais recente tecnologia de nicho fornece inclusivamente informações em tempo real sobre localizações específicas de baleias, por exemplo. Isto enriquece os dados recebidos sobre factores como o tempo, as correntes oceânicas e os padrões de ondas, proporcionando ao capitão mais informações e perspectivas do que nunca para evitar icebergs e outros perigos.

Ao mesmo tempo, o mar ficou mais movimentado — todos os anos são transportadas mais cargas por via marítima — e o número total de icebergs aumentou devido à crise climática. Estes icebergs são diferentes dos seus antecessores: são mais pequenos, flutuam mais baixo na água e são mais difíceis de ver, mas ainda assim podem danificar um navio e perturbar o seu curso. Acrescente-se ainda que alguns capitães estão sob maior pressão para reduzir custos e prazos, optando deliberadamente por rotas mais perigosas, repletas de icebergs, como a famosa Passagem do Noroeste pelo Oceano Ártico.

Parece uma metáfora para o mundo empresarial moderno, não parece? Trazendo isto de volta ao nosso papel de contabilistas, tal como o capitão do navio, as nossas forças fundamentais são mais importantes do que nunca face a mais risco, mais incerteza e maior recompensa potencial. Mas tal como o capitão do navio, as nossas circunstâncias mudaram e já não é possível fazer negócios como de costume. Para continuar a acrescentar valor num novo ambiente, devemos também complementar as nossas competências e experiência fundamentais com informação adicional, aproveitando o poder da tecnologia e pensando de forma inovadora.

Precisamos de nos questionar sobre como podemos redirigir as qualidades que nos tornam bons contabilistas para continuarmos relevantes hoje. Como podemos fazer as coisas melhor e mais rapidamente? Como podemos obter informação mais qualificada e depois aproveitar essa informação para tomar melhores decisões? Argumentaria que a resposta reside nas qualidades fundamentais dos contabilistas complementadas por uma nova mentalidade, competências e formas de trabalhar para melhorar o nosso papel, bem como o valor que aportamos às nossas organizações. Uma forma prática de alcançar isto hoje é deixar de encarar a nossa formação contínua como um mero exercício de conformidade e utilizá-la estrategicamente para aprender sobre as tecnologias e formas de trabalhar de que necessitaremos no futuro, e como as podemos aplicar no dia-a-dia.

É precisamente esta capacidade de pensar de forma inovadora que nos vai conferir a nós, e às nossas organizações, a vantagem competitiva. Garantir que continuamos a alargar os nossos horizontes, a planear as melhores rotas e a reagir rapidamente ao inesperado — para que os icebergs do nosso futuro apenas sirvam para arrefecer o whisky no nosso copo!

Tal como publicado em AccountingWeb - October 2021